Gramática da língua e ortografia da língua: dois saberes distintos
Estou retomando este assunto para esclarecer algumas interpretações erradas e distorções dos fatos lingüísticos feitas por um doutor em Direito em um artigo que escrevi, o qual intitulava de “Erro de ortografia ou erro de português?” (Zero Hora, 12/01). Ao afirmar que: “erro de ortografia não é erro de português” estou fundamentada teoricamente, são idéias que acredito e quem as defende é o lingüística Marcos Bagno em seu livro: Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa (2002). Marcos Bagno é doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, mestre em Lingüística pela Universidade Federal de Pernambuco, atua como professor na Universidade de Brasília e escritor com mais de trinta livros publicados, enfim, uma autoridade neste assunto.
Uma coisa que deve ficar clara é que a ortografia de uma língua, o modo de escrever, não faz parte da gramática da língua, isso não sou eu quem diz, são teorias consistentes baseadas na ciência lingüística, a qual se afirma como uma ciência autônoma há mais de cem anos.
Segundo Bagno (2002), uma conseqüência negativa do apego da Gramática tradicional à língua escrita é a importância exagerada concedida aos chamados erros de ortografia. O que é chamado de “erro de português” são simples desvios da ortografia oficial. Saber a gramática de uma língua não tem nada a ver com saber a ortografia dessa língua, são dois saberes distintos, um é natural e o outro é artificial, sendo este aprendido, exercitado.
Ao colocar em meu artigo anterior que aquilo que o aluno produz reflete o que ele sabe, e isso, com certeza, deve ser valorizado, estou falando das variedades lingüísticas, crenças, conhecimentos de mundo que, com certeza, esse aluno possui e irá transferir para seus textos. Como já expus anteriormente, em primeiro lugar ao corrigir uma redação é necessário captar as idéias que esse aluno quer comunicar, para numa segunda etapa aplicar as regras de ortografia oficial. Não basta decorar as páginas de uma gramática normativa para escrever um bom texto, é preciso que o aluno saiba comunicar, ordenar suas idéias, enfim, como coloquei acima saiba trazer seus conhecimentos de mundo ao texto.
Gostaria, também, de emitir minha opinião quanto ao projeto do deputado federal Aldo Rebelo, que prevê proibições no uso de palavras estrangeiras; sou totalmente contra, pois os estrangeirismos não são nenhuma novidade, termos sempre foram incorporados nas variadas línguas como uma das formas de ampliar nosso léxico. A língua como sistema vivo está sujeita a transformações.
Assim, opiniões que se baseiam exclusivamente na doutrina gramatical normativa, crenças infundadas que guiam o senso comum, no que diz respeito à língua, vêm sendo demonstradas e criticadas pela Lingüística moderna há anos. As idéias que expus são defendidas por especialistas que se dedicam ao estudo dos fenômenos da linguagem humana.
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2 comentários:
Muito bom o texto, esclarece as dúvidas do texto anterior e dirime qualquer interpretação errônea..
parabéns pela qualidade!
Parabéns Deise. Sugiro também que coloque o dia e o jornal que vinculou o artigos aqui publicados. Grande abraço!
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