domingo, 3 de agosto de 2008

Leitura como prática social


A leitura constitui uma prática social. O sujeito, ao praticar o ato de ler, está mergulhado num processo de produção de sentidos.
O que se deve ressaltar é a importância de se ter uma prática de leitura que ultrapasse os limites da decodificação mecânica de signos, de uma prática que prepare leitores capazes de não só participarem da sociedade na qual convivem, mas principalmente de tentarem transformá-la.
A leitura que simplesmente valoriza os elementos formais do texto, é uma concepção de leitura como decodificação da palavra escrita, sendo apontada por alguns autores como responsável pelo fracasso escolar do aluno. Segundo Kleiman (1993), o fracasso na formação de leitores provoca o insucesso geral do aluno nos ensinos fundamental e médio, o que significa dizer que o ensino de leitura é fundamental para solucionar os problemas relacionados ao pouco aproveitamento escolar, uma vez que constitui exigência presente em todas as disciplinas acadêmicas ofertadas pela escola. Então, essa responsabilidade pela formação do aluno-leitor não deve ser exclusiva dos professores de Língua Portuguesa, mas também dos professores das outras disciplinas.
O professor deve perceber a importância do conhecimento prévio do leitor na compreensão de textos e a necessidade desse conhecimento ser ativado, para que os alunos transformem a leitura numa atividade de busca, dando significado ao texto lido, fazendo inferências, desse modo, chegando a uma leitura crítica.
Cada leitor vai ler o texto (intermediá-lo), atribuir significado a ele de acordo com seus conhecimentos prévios, assim não podemos afirmar que todos que lerem o mesmo texto farão a mesma interpretação, ficando claro, então, que é o leitor que age sobre o texto e não o contrário.
Assim, tem-se o papel do leitor como atribuidor de significados e, nessa atribuição, deve- se levar em conta toda a “bagagem cultural” trazida pelo aluno. Desse modo, no momento da leitura o leitor interpreta o texto sob a influência de todas as suas experiências com o mundo.
Ressalta-se que, para a formação deste leitor que consegue pôr em prática sua criticidade, é necessário que haja um estímulo contínuo para o contato entre o indivíduo e o livro, esse leitor precisa ser seduzido para a leitura.
Cabe ao professor proporcionar várias atividades inovadoras, procurando conhecer os gostos de seus alunos e a partir daí escolher um livro ou uma história que vá ao encontro das necessidades desses sujeitos. Esse educador deve verificar se a leitura de lazer, não proposta pela escola, faz parte das atividades dos alunos e se pode contribuir para a formação de um leitor crítico.
Portanto, enfatizo a importância da leitura na formação do sujeito leitor, como nos coloca o professor Norberto Perkoski (2005): “O ato da leitura, em sentido mais amplo, é visto como indispensável a todo o indivíduo que, pertencendo a uma civilização letrada, reivindica o direito à cidadania.”
A vocação de ser professora


Tenho pensado sobre algumas questões, como o fato de ter me tornado professora. Sempre gostei da idéia de ensinar, o retrato de uma sala de aula era algo que me fascinava, pensava que um dia também teria meus alunos.
Aprendi muito no meu estágio, trabalhei com uma turma de segundo ano do ensino médio. Depois de formada resolvi assumir uma turma de um pré-vestibular popular, o Alternativa, projeto vinculado à UFSM. Encontrei alunos que realmente estavam ali para superar um desafio, passar no vestibular.
Este ano, ministro aulas no município de Formigueiro. Desse modo, pude então realizar aquele meu sonho, que era ser chamada de “professora”. Isso é para mim uma realização pessoal, pois foi através desse sonho, se é que posso chamar de sonho por ser utópico demais, talvez realização mesmo, que coloquei em prática minha vocação, em que posso dizer com absoluta convicção que é a de ser professora.
Trouxe um pouco de minha trajetória para levantar a questão da desvalorização que nós profissionais estamos sujeitos, não falo apenas de desvalorização devido aos baixos salários, incluo a falta de respeito de alguns alunos, da escola, dos governantes. Com certeza somos profissionais que amamos o que fazemos, amamos estar em uma sala de aula, amamos ensinar, só não admitimos essa falta de respeito pelo modo como somos tratados, com turmas com quase quarenta alunos em uma sala de aula, sem contar na multiseriação. O ensino ao invés de progredir, retrocede. Não se faz educação, não se promove a formação e não se constrói a aprendizagem sem considerar as individualidades dos discentes com os quais o trabalho é realizado.
Quero retomar as palavras de um educador que deve ser citado, Paulo Freire, ao nos colocar que “é esta força misteriosa, às vezes chamada vocação, que explica a quase devoção com que a grande maioria do magistério nele permanece.” Portanto, somos profissionais comprometidos com nosso trabalho e o mínimo que exigimos é respeito.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Gramática da língua e ortografia da língua: dois saberes distintos


Estou retomando este assunto para esclarecer algumas interpretações erradas e distorções dos fatos lingüísticos feitas por um doutor em Direito em um artigo que escrevi, o qual intitulava de “Erro de ortografia ou erro de português?” (Zero Hora, 12/01). Ao afirmar que: “erro de ortografia não é erro de português” estou fundamentada teoricamente, são idéias que acredito e quem as defende é o lingüística Marcos Bagno em seu livro: Português ou Brasileiro? Um convite à pesquisa (2002). Marcos Bagno é doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo, mestre em Lingüística pela Universidade Federal de Pernambuco, atua como professor na Universidade de Brasília e escritor com mais de trinta livros publicados, enfim, uma autoridade neste assunto.
Uma coisa que deve ficar clara é que a ortografia de uma língua, o modo de escrever, não faz parte da gramática da língua, isso não sou eu quem diz, são teorias consistentes baseadas na ciência lingüística, a qual se afirma como uma ciência autônoma há mais de cem anos.
Segundo Bagno (2002), uma conseqüência negativa do apego da Gramática tradicional à língua escrita é a importância exagerada concedida aos chamados erros de ortografia. O que é chamado de “erro de português” são simples desvios da ortografia oficial. Saber a gramática de uma língua não tem nada a ver com saber a ortografia dessa língua, são dois saberes distintos, um é natural e o outro é artificial, sendo este aprendido, exercitado.
Ao colocar em meu artigo anterior que aquilo que o aluno produz reflete o que ele sabe, e isso, com certeza, deve ser valorizado, estou falando das variedades lingüísticas, crenças, conhecimentos de mundo que, com certeza, esse aluno possui e irá transferir para seus textos. Como já expus anteriormente, em primeiro lugar ao corrigir uma redação é necessário captar as idéias que esse aluno quer comunicar, para numa segunda etapa aplicar as regras de ortografia oficial. Não basta decorar as páginas de uma gramática normativa para escrever um bom texto, é preciso que o aluno saiba comunicar, ordenar suas idéias, enfim, como coloquei acima saiba trazer seus conhecimentos de mundo ao texto.
Gostaria, também, de emitir minha opinião quanto ao projeto do deputado federal Aldo Rebelo, que prevê proibições no uso de palavras estrangeiras; sou totalmente contra, pois os estrangeirismos não são nenhuma novidade, termos sempre foram incorporados nas variadas línguas como uma das formas de ampliar nosso léxico. A língua como sistema vivo está sujeita a transformações.
Assim, opiniões que se baseiam exclusivamente na doutrina gramatical normativa, crenças infundadas que guiam o senso comum, no que diz respeito à língua, vêm sendo demonstradas e criticadas pela Lingüística moderna há anos. As idéias que expus são defendidas por especialistas que se dedicam ao estudo dos fenômenos da linguagem humana.
Erro de ortografia ou erro de português?


Muitas vezes, a escola dá mais destaque aos “erros” cometidos pelo aluno em detrimento de seus acertos, estando voltada ao ensino da gramática normativa; desvalorizando os aspectos culturais e lingüísticos trazidos por esse aluno. Aquilo que ele diz ou escreve que não está de acordo com as regras dessa Gramática Normativa é visto como “errado”, desse modo, acaba-se esquecendo que esse sujeito fala fluentemente sua língua, possuindo uma experiência de vida, um conhecimento de mundo.
A intenção é de que o aluno saiba a variedade padrão, mas também perceba que a variedade lingüística trazida por ele, a sua linguagem, possa ser adequada em contextos distintos. A variedade trazida pelo aluno deve ser valorizada e tomada como ponto de partida para a aquisição da variedade padrão. Uma forma de a escola manter esse contato com a norma padrão é através de diferentes gêneros de textos.
Essa diversidade textual deve ser utilizada para que os alunos percebam formas e linguagens diferentes, ajudando-os, dessa maneira, a adquirir a norma padrão e superar dificuldades de ortografia e concordância.
A gramática tradicional tem sua importância, mas acaba levando muitos a confundir o saber a língua com saber a ortografia oficial da língua. Segundo Marcos Bagno (2002), é comum vermos textos de alunos pintados de caneta vermelha, em que o professor deveria ler com atenção o que é produzido para captar as intenções de seu texto, as idéias que se quer comunicar, os conhecimentos de mundo que esse sujeito pode transmitir, para só depois, aplicar as regras de ortografia oficial, adequando o texto a elas.
É importante destacar que o aluno ao cometer desvios de ortografia não está cometendo “erros de português”. A ortografia é adquirida através de um exercício de memorização e treinamento, como defende Bagno (2002): “é uma competência que tem que ser aprendida, ao contrário de outras competências que são adquiridas naturalmente”.
Assim, é importante enfatizar essas questões, erro de ortografia não é erro de português. E, aquilo que o aluno produz reflete o que ele sabe, e isso, com certeza, deve ser valorizado.
A formação do leitor crítico


Toda escola pública ou privada, constitui, por excelência, um centro formador de leitores.
Precisamos promover um trabalho de produção de leitura que contribua para a formação de um sujeito leitor, capaz de identificar num texto as suas leituras plurais ou, como cita Roland Barthes (1992), fazer do leitor não mais um consumidor, mas um produtor de textos, à medida que preenche as lacunas existentes na obra lida, mergulhando na ambigüidade dos textos, em busca dos significados mais profundos.
Há a necessidade de um estudo sobre as práticas de leitura nas aulas de Língua Portuguesa, será que essas atividades propostas na escola realmente contribuem para a formação de um sujeito leitor? Um sujeito capaz de posicionar-se criticamente frente às informações que lhe são impostas?
A leitura constitui uma prática social. O sujeito, ao praticar o ato de ler, está mergulhado num processo de produção de sentidos.
O que se deve ressaltar é a importância de se ter uma prática de leitura que prepare leitores capazes de não só participarem da sociedade na qual convivem, mas principalmente de tentarem transformá-la. Para isso, é necessário o papel do professor como mediador nesse processo, que esse educador atente para o caráter social do ato de ler, uma vez que, no momento da leitura, trocam-se valores, crenças, gostos, que não pertencem somente ao leitor, nem ao autor do texto lido, mas a todo um conjunto sócio-cultural.
Como a escola é a entidade responsável pelo ensino da leitura, cabe a ela refletir e redirecionar sua postura diante dessa prática que pode, dependendo de como for conduzida, transformar o aluno num leitor ou distanciá-lo de qualquer leitura.
Por fim, vale salientar o conhecimento de mundo desse aluno. A ativação desse conhecimento é relevante para que haja compreensão do texto lido.
Essa questão retoma as palavras de um educador que não posso deixar de citar, Paulo Freire, ao destacar que a “leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente”. Dessa maneira, a leitura da palavra não pode deixar de considerar o conhecimento de mundo que cada leitor possui, adquirido em seu contexto, suas vivências, enfim em sua realidade.
Portanto, enfatizo a importância da leitura na formação do sujeito leitor, pois essa leitura estimula o espírito crítico, que é a chave da cidadania.